rain maker - Costa Rica

não se descreve a chuva. e só se dá por ela quando falta ou cai em demasia. assim é este blog. é, ou não é.

9.09.2005

chegada a chuva e com o outono à espreita

é hora de seguir.



foi um prazer!

raios partam a memória

from Brooke High School


raios partam a memória!

não, não é paranóia. é isto mesmo:

querer recomeçar sem história.

o passado que se lixe!

que se lixe o futuro!

que tenho eu com isso?

nasci para ser livre e hei-de ser, agora.

tudo o que disser é só de hoje em diante

válido.

o ontem quem não estava não viu.


quem estava guarde a mágoa.


sou como um rio: não sei a minha água.

memória líquida

liquid memory - jilanik


entreaberta a porta


a memória sem convite


invade o espaço livre


guardado para os sonhos


ainda por viver.


eu que a julgava morta...


corro a fechá-la à chave


não a volto a abrir


raios partam a porta


e a memória!


quero os sonhos à solta


nesta terra magoada


mas revolta


onde só esperam


tempo para florir.

e os pinheiros magoados


recebem da chuva algum alívio pela perda dos irmãos.
Dave Swanson Photographer Marcell, Minnesota




primeiro fechei-te a porta à chave
esperei

depois fechei vidraças cerrei cortinas
esperei

avisei os vizinhos o comércio em volta
esperei

noticiei o teu desaparecimento nos jornais
esperei

não vieste não perguntaste não mandaste
flores


apaguei o meu rosto antigo

escancarei as janelas fui às compras

alertei a vizinhança inteira que morreras

respirei.

red hope

mujer con granadas - alberto pancorbo

9.08.2005

yellow hope

by Kevin Ambrose

frio

at Standard Galleries


adormecida no ar quente da casa
nos vidros da janela nós de dedos
pareciam tocar a melodia do costume

o caniche da vizinha ladriscou
tapei os ouvidos com as palmas abertas
após uns minutos o silêncio

"não foi ninguém. quem sabe
choveu mesmo desta vez?..."

mas a casa ficou-se mais vazia
e subitamente o ar gelou.

Interlude

interlude Brian Morrison

gavinhas

entrelaçados dedos

de serpentes

humidade escondida

em grutas odorosas

jogos de paciência

em teclas ósseas

sabor a musgo e flores

nectarinos sucos

caminhas

abrindo sulcos

ensolarando cores

ficam-te para trás

castas de frutos.

repouso azul

Greater Blue-eared Starlings H.C. Mueller

9.07.2005

na certa hora

bird-ready-to-fly by
Brandon Stone


partiste-te ao meio qual romã

saboreei-te cada bago vermelho

entornavas o suco que eu sorvia

entrega absoluta a tua bem sabia

via-te o rosto tenso intenso

reflectido no espelho velho




deixando-me exausta foste embora

nada como saber sair na certa hora.

sétimo dia

Wandering - albatross

I
saboreio o teu sal
e ao olhar para o alto
és tu já albatroz a mergulhar

II
ruído de asas fortes
as tuas mãos de areia
arranham o meu dorso

III
garras e bicos
a batalha do amor
já transformada em voo

IV
e o deus que nos criou
viu que era bom sorriu
e descansou.

Evasão


Evasão - MARIA CONCEIÇÃO VALDÁGUA

9.06.2005

tinha 6 anos.

road SAWANO, Shin-ichiro

encontrou a primeira estrada florida e limpa e, partiu.


vim da rua e cheirava a lavado o ar que respirei

at folderblog

"mãe...
quando tu me beijavas o sol não doía tanto na minha pele"

disse Almada Negreiros num poema.

eu digo isso da chuva, com toda a festa que me vai cá dentro
.

JÁ CHOVE !!!!

M Christian

Será ainda pouca mas é chuva!!!


9.05.2005

sempre

hoje - o ninho perdido

Birds fallen from their nest, Arles
LUCIEN CLERGUE


LUCIEN CLERGUE

LUCIEN CLERGUE

ciganos IV

gitana- Albert Edelfelt (1854-1905)

ciganos III - o casamento

chegava muita gente. vinham de tudo o que era estrada ou carreiro. pobres, ricos, vinham.

as crianças pareciam ter aumentado de número a olhos vistos.


boda-gitana Jason M. Brenier

as mulheres numa azáfama infindável que vinha de dias anteriores já, preparavam comidas aromáticas, coloridas.


a festa começava e acabava na rua ainda que tivessem armado uma tenda enorme para os convidados.

tudo aquilo era família?
sim. próxima, afastada tios primos novos velhos, o mundo cigano vinha celebrar a união da rapariga dos olhos cor de fundo do mar e de um rapazito magro, vestido a rigor.

que mundo misterioso aquele onde eu tinha tido o privilégio de entrar!


Fernando de Tacca

mas durou pouco o meu momento mágico. a noite começava a cair e a desculpa de ter demorado no café não satisfaria os tios. a terra era pequena ainda e seria fácil confirmar.

partimos de volta à vila.
atrás o som de palmas ritmadas e vozes de homens que cantavam alto e alegremente

"pegala que es tuya! pegala que es tuya!"



as mulheres dançaram por certo, noite dentro, à roda da fogueira.

eu sonhei com os os olhos escuros da noivinha cigana.

ciganos II - o rosto

gipsy-face by Kiliaris Babis



coisa de criança, pensarão. não foi.

passaram anos e eles vinham sempre e ficavam cada vez mais tempo. onde houvesse água e terra por arar paravam.

eu espiava-os, menos a medo já.

- aonde vais, lena?
- ao jardim, tia.
- o primo vai contigo.
- não é preciso, a fernanda vai.

a fernanda pintava e era livre. não se prendia a regras ensebadas. os tios não gostavam. "tanto pior!". e lá ia.

ela também gostava de ciganos e conhecia um que dizia ser príncipe. era de Serpa. estudante de faculdade. lindo.
no acampamento onde as levou, uma rapariga olhava-me, frontalmente.

olhos fixos. tão grandes e despidos como os meus. mas escuros. como deve ser o mar onde não chega a luz.

a luz estava nela. uma luz triste numa ainda quase infância. porquê? os meus porquês!

quis saber.

- vai casar no domindo.

"mas tão triste..." pensei. não disse nada que estava em casa-rua alheia.

- querem vir? à cerimónia toda talvez não, mas à festa. eu trago-as comigo.

se queriam ir?!

- aonde vais, lena?
- à missa, tia.

era mentira? não complectamente. ia a um casamento de gente com fé. com muita fé.

ciganos I


era pelo verão, pelas feiras que chegavam.

de burro ou em carroças cheias. crianças empilhadas e cães correndo ao lado. parecia estarem em festa sempre, apesar do cansaço da viagem que começara onde?

a outra miudagem ficava-se a olhá-los à distância num misto de insegurança (ouvida nos avisos dos pais) e de atracção pela liberdade que emanavam.

paravam junto aos rios se os havia, senão perto de fontes ou de poços. montavam acampamento num alarde de vozes que se entendiam vá lá saber-se como, de tantas e tão altas!

os homens fumavam mais do que faziam.

as mulheres, montadas as tendas, tratavam da comida, que os filhos já lhe puxavam as saias a arrastar o chão.

eu ia devagar, escondida de árvore em árvore e acocorava-me como as árabes, a vê-los.

eram mágicos.

para mim, pelo menos, eram. sonhava um dia poder segui-los e nunca mais ter terra minha onde voltar.

e era um sonho bom que tinha asas.

lá acorria dia após dia, às escondidas, até ser encontrada pelos mais novos e entrar nos jogos diferentes que sabiam.





ouvido o chamamento dos pais, desaparecia, que a intrusa era eu.

ninguém o disse nunca. estava implícito.
as crianças entendem-se em silêncio, quase sempre.

mas era para voltar que me afastava.

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e é para voltar a eles, os ciganos, que hoje retomo um tema que me é tão caro como o era então.

9.04.2005

gota a gota de mim


at Grade my Art

tenho espalhado a pouca água que me coube em sorte.

primeiro junto a mim, pelos mais próximos. outras vezes pelos que me cabem debaixo do olhar. dou pouco ou não sei dar...ou nunca chega. mas insisto.

outra, a nas lágrimas contida, deixei-a em papéis que o tempo apodreceu ou eu rasguei.

agora estou aqui num espaço aberto. descampado sem privacidade.

atiro ao vento o que me resta antes de chegar a hora de partir.

não guardo nada. não escondo nada. não tenho potes escondidos.

- sou só esta água simples e pouca que aqui deixo, gota a gota. partilho-a e não lhe sinto a falta porque recebo em triplicado toda a que consigo dar.

não sei fazer chover, pobre de mim. então deixo um sorriso e a esperança de chuva para quem aqui passar.

a un Romero especial

romanibalitx- Galería de fotos Mundani



Gracias Romero!


É de sonho e de pó
O destino de um só feito eu
Perdido em pensamentos sobre o meu cavalo
É de laço e de nó
De gibeira e jiló dessa vida
Cumprida a sol

Sou caipira pira pora Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida
Sou caipira pira pora Nossa senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida

O meu pai foi peão, minha mãe solidão
Meus irmäos perderam-se na vida em busca de aventuras
Descansei, joguei, investi desisti
Se há sorte eu não sei, nunca vi

Me disseram porém, que eu viesse aqui
Pra pedir de romaria e prece paz nos desaventos
Como eu não sei rezar
Só queria mostrar meu olhar, meu olhar, meu olhar



"Romaria" de Ellis Regina

bom dia

Egret Maritime Forest