rain maker - Costa Rica

não se descreve a chuva. e só se dá por ela quando falta ou cai em demasia. assim é este blog. é, ou não é.

8.20.2005

quiet

Bryan Remer

"nascem flores onde quiseres"

Andreas Neumann


A um Amigo triste.


Morte ao meio-dia (excerto)

Friedrich_wreck


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O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e o povo em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia.


A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer.


Ruy Belo

8.19.2005

Ela

Car by Maggie Sale

encarnado

Encarnado e Branco by Maggie Sale


baixo relevo

Woman one cachet

8.18.2005

...direita à esperança.

Photo by Kristy Nilsson

Mapa


Photo Nasa


El mapa

He mirado la patria largamente.
Se le nota tristeza hasta en el mapa.
Las personas mayores nos explican
que es libre, sin acecho atentísimo de zarpas.
Y a punto estuve de quedarme ciego
porque a la patria la oscurecen llagas,
la pisan botas, se le cierran puertas:
necesaria prisión con calles vigiladas.
Con el sudor de todos levantamos la espera,
pues no hay dolor que dure lo que dura una mancha.
Que sabemos de noches, de sentencias, amigos,
pero también sabemos que llega la mañana.
Despertemos, seamos el metal derretido,
lo que quiera la sed, la tierra trabajada,
lo que quieran las piedras, la sencillez del huerto,
lo que pidan las llamas,
en fin -al fin- la piel abierta en surco.
He visto largamente el mapa.
Pensé en mis hijos. Duele. Y eran todos los niños.
Fui deletreando el nombre de la patria
mientras buscaba dónde, dónde poner los ojos.
Y recordé de pronto algo que sangra:
Mexicano de tierra ensalinada,
desollado haraposo,
comedor de la noche y de las hojas,
catástrofe de costa a costa,
ando buscando a un pueblo,
ando buscando a un pueblo.
Habla.

De Juan Bañuelos (México, 1932)

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PS :por cá mudaram-se os ventos, e as vontades?

Madalena

8.17.2005

entreaberta, a porta.

Photo by Selim Günes

acácia rubra

Moçambique foto daqui

IV - o fim

A. Rodin. Beijo.

o mar. este país tem tanto tanto mar! já só se ouvia a sua voz bem perto. algumas aves sacudiam penas em ninhos invisíveis a olhares como os deles, tão secretamente falando entre si.

a areia molhada pela última maré. roupas que se elevam, não se tiram. nunca tinham sido vestidas sequer, pensar-se-ia.

o abraço. esse envolver de corpos que se entendem como se a vida os tivesse traçado só para essa função.

por fim o beijo.

diz quem lá passa por aquela hora, que há uma estátua de dois amantes, de bronze toda feita e que se vai quando sobe a maré.

só pode ser história de pescadores. quem mais inventaria tal maravilha assim sem mais nem menos?

história de pescadores. claro que é.

III - encontro ocasional

alone - Eddie Westbroek


o rapaz limpou as mesas. lavou os copos. passou o pano húmido na bancada. varreu e lavou o chão deixando-o a brilhar. ia poder dormir.

- hoje chego a casa antes que nasça o sol. por este andar nunca mais acabo a porcaria do curso, merda de vida!

a música manteve-a a tocar. naquela hora só ouvia já a que gostava. era a sua única liberdade.

ela pairava pelas ruas. viu o bar aberto e sem ninguém. entrou. não escolheu uma mesa. estavam tão solitárias como ela. sentou-se num banco do balcão rosnando um boa noite .

- estamos a fechar.

- estavam. tem búzios?

- nunca temos. náo está na marisqueira. aperitivos a esta hora! cajú, e olhe lá... é para não lhe dizer que não a sirvo.

- gosto de si porque é simpático...

dê-me um whisky duplo velho. se não tiver velho, um bom burbon, duplo triplo cheio!

- (só me faltava esta a querer embebedar-se!) porca da minha vida! sou um gajo cheio de sorte... é só alegrar-me e lá vem dose!

- falou?

- não.

ele entra escancarando a porta meio fechada pela mola. faz girar um banco com raiva de virar o mundo do avesso. não diz nada a não ser:

- o costume!

-por aqui? a esta hora?

- é tarde? deve ser... já não há porcaria espalhada... eu não demoro.

- servidas as bebidas cada um mergulhou nas suas como num lago bom. depois ergueram simultâneos o olhar e cruzaram-no.

a luz batia no vestido translúcido da mulher. ele viu-lhe os contornos. mas foi no olhar que se fixou.

à uma ergueram os copos numa saudação sem palavras.

por detrás do balcão o jovem sorria agora.

pagaram a conta. encostaram os corpos na estreiteza da porta.

lá fora as estrelas estavam silenciosas e brilhantes.

o rapaz do bar lavou os últimos copos a sorrir. desligou a música. fechou a porta de segurança e saiu pelas trazeiras a assobiar.

II - a ausência dele


É noite...nada vibra..nada fala...
Tudo mergulha num sonho vago e mudo...
E a solidão desprende-se de tudo
Qual bálsamo subtil que a noite exala...

Silêncio...estou sózinha...eu me desnudo
Manifestando a dor, sem disfarçá-la...
E por adormecê-la e suavizá-la,
A noite envolve a terra, qual veludo!

Eu não quero quebrar esta magia!
Silêncio...a noite morre...é quase dia...
E eu, não sei quem sou, nem onde vou.

Nada murmura...nada...tudo dorme...
A noite é para mim deserto enorme,
Aonde meu destino me atirou!

(Memórias Minhas 14/5/2003 )



atira com o livro para o chão. não que seja costume, trata-os com carinho familiar. mas hoje ele não veio. a vela ardeu até ao fim, entornou cera.


- o mesmo telefonema: " não me esperes amor, hoje não dá...família... tu entendes...um beijo, vou ter de desligar."

não não entendo nada! amante é o que ama, não é isto!
nem eu sou feita desta matéria mole que ele sabe moldar. não vou chorar nem ler poemas trites.

desce um vestido leve sobre o corpo perfumado, nú.
apanha por hábito o livro caído e poisa-o na estante.


- vou bugiar. de preferência apanho um pifo e como búzios.


não tem relógio, só a carteira breve.


a noite é limpa e brilham as estrelas a rebate.


- o mar! vou pelo menos ouvir o som do mar.



I - a ausência

gallery_39_nudes



é noite.

já o tabaco lhe provoca tosse e o calor lhe tira a pouca paz.

tem amigos e sabe. mas não hoje. hoje nem sabe bem o que buscar. dormir não pode.

tira um cd. pôe outro. não os ouve. talvez cansaço só e um grande grande enfado.

passa súbito da hesitação à raiva. veste-se meio à toa.

- deixa-me ver... chaves, tabaco, isqueiro, a carteira... está tudo!

sai para a noite batendo com a porta.

as luzes estão acesas. o último cd ainda toca. saiu como quem fica ou o contrário.

lá fora o rebate das estrelas brilha fala de uma ausência qualquer.

caminha à toa na cidade, descendo para onde está o mar.

- devia ter trazido o telemóvel e ligar a alguém.

pensa, mas não tenta sequer voltar atrás.

vai sem qualquer direcção mas quem o olhe, dirá que tem destino onde chegar.


8.16.2005

Eu


Eu, quando digo eu, não me refiro apenas a mim

mas a todo aquele que couber dentro do jeito

em que está empregado o verbo na primeira pessoa.



José de Almada Negreiros

só há saída pelo topo

cave

olho-me no espelho e não me vejo. reflexo de um outro, nada mais.

os olhos ainda brilham por enquanto, de lágrimas de sais.



à volta uma nesga de luz que encandeia, vim por ali, há quanto tempo?

não há como voltar . sucumbo à vontade de um lamento.



à volta só o escuro, o estreitado e inultrapassável beco.

mas se ficar aqui, definho, seco.



procuro em mim a escada das urgências com força e raiva de sobreviver.

busco-me. encontro-me: - há saída pelo topo. tem de haver!


8.14.2005

infância

Zbigniew Kosc

copper tone

copper tone Photo by Judy Epstein

marcada a tons de cobre
pelo nascer
não suporto o amarelo-branco
que há no verão
fere-me os olhos não posso
repousar

devo ter visto as folhas a cair
suaves aves
no meu primeiro despertar

preciso delas
e da chuva a bater-me nas janelas
para enfim dormir
e não pensar.