rain maker - Costa Rica

não se descreve a chuva. e só se dá por ela quando falta ou cai em demasia. assim é este blog. é, ou não é.

8.06.2005

rain-maker


Wade Gupta

trazia nas mãos o arco-íris.

subira escarpas até ao topo das montanhas. ia em busca da água tao urgente.

cansado o corpo mas disposta a alma, alegrou-se de ver o colorido sinal de chuva próxima e prendeu-o na avidez das mãos

- vem comigo és preciso entre os meus.

não pesava.

uma nuvem a cercou e só as cores brilhantes, arqueadas, se viam enquanto descia cuidadosa.



Wade Gupta

muitas vezes escorregou descendo a encosta, para não deixar cair o arco, sinal da água preciosa, que levava nas mãos de dedos esguios.

esfolou joelhos, rasgou as vestes breves, tremia-lhe o corpo de dorido.

queria tanto parar, dormir um pouco! mas se parasse a água desceria à terra fora do sítio aonde urgia.

tinha de levá-la ao chão já ressequido de onde partira na esperança de encontrá-la.



pinker.wjh.harvard.edu/photo


chegada à planura, acompanhada pela nuvem suave e cada vez mais leve, viu que se iluminava a terra tão carente de uma luz de alegria.

- voltarão por fim as cores de verde tão apagadas já.

pensou. deitou então a cabeça cansada num tufo de erva meio ressequido e adormeceu.

pobre rain-maker com ânsias de milagre!

durante o sono deixou fugir-lhe o arco-íris e a nuvem seguiu-o.

acordou quando o sol ardente lhe queimava a pele.

viu-se perder a esperança.

e a única água que desceu ainda à terra nesse dia, foi a que lhe escorreu dos olhos em lágrimas de revolta.

- aonde estará deus? também adormeceu?!

desde então lhe chamam rain-maker.

continua por mares montanhes e desertos até. promete que não volta até que a chuva volte.

os que a sabem perguntam:

- voltará?

8.05.2005

a última árvore


Carol Szabicot Graphic Design



tanta raiva!

é só o que hoje sinto.

fico-me calada no meu canto. falar para quê? alguém me iria ouvir que tivesse o poder de renovar o mundo?

se houver um deus só pode estar zangado. infinitamente mais irado que eu.

escrever não sei.
atiro palavras de encontro a este branco como quem cospe rajadas de granizo.

quero o meu silêncio duro para sempre.

arda o que querem que arda, mas depressa!

acabem de vez com a morte lenta de um planeta que não vai sobreviver à estupidez humana.

sobrarão pedras ratos e as sempre eternas baratas, ou nem tanto.

fui à janela do escritório: o sol fechou. mas não, não é neblina o que hoje se vê a encobrir o tejo, é fumo. fumo da serra onde perto nasci.

fico de pedra.

eu que desde menina ansiara ser poeta não o fui, mas nem por isso deixei de cedo atender aos pedidos da terra que me deu o espaço, a água, a sombra onde fui crescendo e me abriguei.

ouvi-a lamentar-se e sem qualquer outra ciência de apoio, antecipei este presente e, muitas vezes, pensei ser bom morrer jovem ainda, para o não ver.

deus é um brincalhão com humor negro!

aqui estou , hoje feita só pedra a dizer-lhe isso.

ainda é só o início do fim inevitável.

- deus, até que a última árvore seja só recreada em computador, falta ainda muito?

diz-me só isso.

eu fico aqui, de pedra, até te ouvir.


Mark Arvid White

8.04.2005

não há "flores do verde piño" D. Diniz...

edu.au-albums.


Ai flores, ai flores do verde pinho
se sabedes novas do meu amigo,
ai deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado,
ai deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquele que mentiu do que pôs comigo,
ai deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,
aquele que mentiu do que me há jurado
ai deus, e u é?


D. Diniz - O Semeador



  • mandou plantar o pinhal de Leiria, que hoje de novo ARDE.

ASSASSINOS !




entre o tudo e o nada




a cada gesto de ternura brota no meu deserto uma flor mais.




esta fê-la nascer a Lina, com a música que, se gostarem, podem agora ouvir.

a ela, Obrigada!

sei os desertos


Shadows - isis.vanderbilt.edu



sei os desertos

são-me uma verdade

tão incontestável

como a morte


sei os desertos

e já tenho o costume

de os atravessar

a passos largos

sem pressas

nem atalhos

mas sem parar

senão por via da água



é então que por fim

a sombra se senta

descansando

de seguir-me tanto

como um assassino

obstinado

ou de andar comigo

lado a lado

como se lhe chamasse

minha irmã


sei os desertos

sobretudo da alma

e se não fora a sombra

esqueceria

ter um corpo

que precisa parar

na busca de água.


morreria.



sei os desertos

sei as sombras


não tenho outro saber.

8.03.2005

enraizada


Thanks to Elisha A

não parto, não não parto, é minha a terra

onde lancei os ramos e dei frutos.

muitos já vi partir por honra e fama

numa debandada de ambição.

muitos sairam para não fazer guerra

e outros ainda por um naco de pão

mas eu fiquei. vivi e fui envelhecendo.

a casca da árvore que sou, endureceu

mas há folhas ainda nos meus braços.

fazem-me respirar e mau ou bom

é ar do meu Pais o que respiro.

é seiva desta terra o que me corre

nas veias estreitadas pelo tempo, do meu tronco-raíz.

e quando a última folha voar, acastanhada

num outono qualquer

é Portugal ainda que irá fertilizar

e ficará no chão fértil o sinal de

onde viveu um dia uma mulher.




8.02.2005

Poeta de Rua

Corner- in Photoblogs.org


Trazido aqui pelo Lumife


Vivi pelas noites brincando com a lua,
catando nas ruas poemas do povo de deus.
As rimas são deles, mas os versos são meus.
A inspiração... dormia na rua.

Poeta dos becos que ainda cultua
o fútil lirismo dos versos de amor:
Eu sou, pois que vivo, fiel tradutor
dos belos poemas que a noite insinua.

Parceiros, que fomos, de mil poesias,
que, juntos, catamos poemas escritos
nas noites, nas luas, nas tantas orgias...

Parceiros, que fomos, de mil poesias,
que, juntos, catamos poemas escritos
nas noites, nas luas, nas tantas orgias...

ainda dizemos os versos não ditos:
Aqueles, proscritos, das noites sombrias,
que só eu e ela achamos bonitos...


Por Vicícius Linck

recordado agora


Alec Muffett

Soltei ao vento o balão
Vi-o ficar pequenino
Ficou-me o vazio na mão
- o vazio era o Destino.

(escrito aos 11 anos)

os caminhos da noite

night road - photos du j0hnny




nua pela estrada andava

corria?

a estrada era larga

tanto a percorrera

- um dia ainda canso!

chegara esse dia

pelo meio da estrada

sozinha

buscava o lugar aonde

coubesse

sem história sem nome

paravam os carros mas ela

seguia

como se os não visse

nem sequer soubesse

porque é que paravam

caminhava cega

buscando na lua o final

da estrada

onde sem saber se perdera

achara?

não queria saber

nua pela estrada seguia

seguia.



Ironia?


Want to help?
Check out our programs to help the Iraqi people

under the programs category.


Queixa das almas jovens censuradas

(excerto)

Dão-nos um lírio e um canivete

e uma alma para ir à escola

mais um letreiro que promete

raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário

que tem a forma de uma cidade

mais um relógio e um calendário

onde não vem a nossa idade


Dão-nos a honra de manequim

para dar corda à nossa ausência.

Dão-nos um prémio de ser assim

sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu

para tirarmos o retrato

Dão-nos bilhetes para o céu

levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos

com as cabeleiras das avós

para jamais nos parecermos

connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história

da nossa historia sem enredo

e não nos soa na memória

outra palavra que o medo

................................

Natália Correia

cuidando que morria


Mark & Esther van Gool


cuidando que partia vestiu-se para a festa.

o caule era tão frágil, que esperar? dera frutos e esses eram fortes doces e suculentos - por isso lhos levaram. mas é assim a vida, que fazer?

cuidaram-na já morta num inverno. deixaram-na de pé como sinal. ela não protestou. não se protesta contra aqueles que não conseguem ver.

ficou então especada e vazia e cuidando ela própria que morria.

mas vestiu-se para a festa. há que ter dignidade no final.

como o fez se a roupagem, de velha, lhe caíra?

pediu ao sol um raio bem vermelho. pediu ao rio que abrandasse o correr para poder espelhar-se. então esticou as raízes até chegar-lhe perto, na ânsia de se ver. e conseguiu.

depois de exausta pelo esforço, refrescou-se apenas, nem se mirou.

a morte tem todo o tempo que há na terra. bem podia esperar que descansasse.

ao outro dia, amanhecia ainda, quando se olhou então pela primeira vez. não entendeu.

cuidando que morria pensou já ter saído da paisagem. é que a árvore que o rio reflectia estava toda replecta de ramagem.

foi o sol quem lhe disse? foi a terra? ou terá sido o rio no seu correr?

- não morreste, estás viva! olha e vê-te.

o raio vermelho do sol a água a terra e o esforço das raízes, tinham salvo uma árvore abandonada por quem levara os frutos, cuidando que morria.

ergueu o frágil tronco e agradeceu.

8.01.2005

reflexos


"A tree stands alone amid the Mud & Mist flats of my Mind." - Mcd



Lumife said :

Hoje trago-te uma oferta do poeta Miguel Torga:

"Canta, poeta canta!

Violenta o silêncio conformado.

Cega com outra luz a luz do dia.

Desassossega o sossegado.

Ensina a cada alma a sua rebeldia."

( e eu e este blog enriquecemos com os Amigos, Obrigada!)

7.31.2005

a pedra caminhante

moving rock - RADEKA ·- Photography


fiz a rota da vida de alma aberta

corri os caminhos mais felizes

subi íngremes escarpas sem temer

atirei para a frente a alma toda

destribuí poemas plantei e procriei



mas ninguém me avisou ninguém me disse



lutei em guerras minhas e alheias

fui companhia a gente que fez história

não pensei avancei. não desisti sorri.

corri até o corpo não poder

até a alma-rio quase secar



mas ninguém me avisou ninguém me disse



endureci. sou pedra e gosto disso

arredondei arestas e desci

à terra onde não sonho nem preciso

sou pedra caminhante sem destino

conheço o piso todo onde me movo



mas ninguém me avisou ninguém me disse!

deserto




nasceu do barro moldado em terra e água

com a carinhosa arte de um criativo Deus



descobriu tudo de olhos extasiados

amou e procriou encheu de vida

a parte de mundo que lhe fora entregue



caçou e semeou herdou a benção

de sustentar os seus por suas mãos



então invadiu espaços destruiu

como se fora ele o criador



hoje a terra é deserto emudecido

e ele ergue-se orgulhoso

no meio do vazio vasto



é o único. o último.

foi ele que venceu.



M.P.





Subitamente,
irrompeu uma chuva de prata.
... e as pessoas, maravilhadas,
pelos pingos daquela chuva tocadas,
se tornaram igualmente prata
e subiram ao céu.

As estrelas piscaram aturdidas,
os anjos relaxaram a guarda
ao ver tantos pingos de prata,
de mãos dadas,
bailando numa ciranda encantada.

Até Deus, já velho e cansado,
quebrou o espelho
ao ver que o seu sonho,
não era mais um pesadelo.

... só ficaram
cá em baixo,
dois pingos de prata,
dois pinguinhos, quase nada,
pra recomeçar tudo de novo!

31/7/05 12:15 PM


(comentário de Batista Filho,

deixado no post paradoxo, o da Lua.

Obrigada Amigo!)

paradoxo visual

paradoxovisual.com

caminho de água


By Tim

o mar é meu e dos meninos pobres

escrevo na areia






Fhotos by McCharles,