rain maker - Costa Rica

não se descreve a chuva. e só se dá por ela quando falta ou cai em demasia. assim é este blog. é, ou não é.

7.30.2005

outra leitura ainda

Fhoto and art by Bill Brandt


seixos
pedras roladas
sobras de terra endurecida
feita rocha
separadas da mãe pelo vento
o mar
pontas arredondadas
esculpidas pelo tempo
desgastadas de tanto
rodopio


junto-lhes as pontas cruzadas dos
dedos
amputados às minhas mãos
estendidas
recusadas por ti.
sobras de mãos caídas
da rocha do meu corpo

e já são pedra os dedos
e já rolam
e aquecem ao sol
como mais dez seixos
que um dia uma criança
encontrará.

Bom dia, Amigos!

7.28.2005

Habitação


Fhoto and art by Bill Brandt



Nem saberia dizer onde moro exatamente.
Desconfio que habito dentro de meus dentes.

Doutras vezes era a penugem dos canários,
e era ali, naquelas sedas, penugem e cor,
que eu me mudava para minhas mãos,
senão os gatos, o dorso, viajava neles.

E se um pássaro súbito:
não pelo avisto, pelo ouvido porém;
(o som é que é súbito) — e outra vez me mudava,
era só ouvidos.

Para os meus olhos,
eles se esbarraram – sobre todos os horizontes –
em cima da beleza:
clamassem os dentes,
clamassem as mãos, clamassem as oiças,
a pele também clamasse — qual nada! —
haveria de engolfá-la só com os olhos —
anos a fio moro neles.

Um dia morei sobre o peito de minhas mães,
branca e preta, as mães,
(todas verdadeiras)
na mesma medida, agora, assim,
minha banda-fêmea
te regaça:


desta vez
“mulher”,
sou tua “mãe”.


Pousa, amor,
te esbalda na cavilha deste peito-pulso
que pulso de pulsar te estremece:
teus dentes, tua-inteira, toda-tua,
tua cara, teus cabelos, tua pele — tudo — e alma;
deixa-te cair neste infinito-agora.


Terminei de sair dos meus dentes, dos meus olhos,
das minhas oiças também saí;
habito agora apenas esta minha mão;
sou apenas esta mão:
nenhuma diferença entre todas as coisas,
um dia quis pegá-las, mordê-las; mão,
o calor de tuas sedas.


E se dormires
recobrirei respeitosamente a tua nudez,


que é só tua —


pausadamente, pousa
o hálito
na cavilha deste peito largo:


dorme, amor,
sossega,


da
tua

nudez — sossega —


que da aurora,
vigilante
eu tomo conta.


Fortaleza, noite alta, 06.02.1999

Soares Feitosa


  • Duas outras Leituras:


as mãos do ser humano

são o que de mais belo existe

para mim....

pois...

para nós os visuais

os olhos tornam-se o nosso espelho,

para um invisual

as mãos são os seus olhos...e...daí

que eu goste tanto delas,

pois com as minhas mão

seu posso ver ...de olhos abertos

e...com eles adormecidos.

por 'létinha'.
29/7/05 2:34 AM


com estas mãos - vazios vales - laboro a dor da inacção
memoriais, calosas, foram as obreiras do pão

à noite o sonho estende as suas redes de evasão
e eu sou o cavaleiro da madrugada
que rasga ruas e estradas e leva o sol de novo a casa

acordo para a escuridão e abraço o tempo
como o velho benfeitor da ilusão - enfrento o clarão
impiedoso como se florisse um cardo à beira de um abismo

por isso entranço a esperança e firo a cidade
com a teimosia do meu olhar - entre gabinetes climatizados
e olhos que são punhais cravando o não - insisto
tenho esta força de pensar, estas mãos para ocupar

mas a espera é a fiel companheira dos meus passos
ao desembocar no vão de todas as escadas
mergulho então na escuridão onde brilha clamoroso
o silêncio impresso nestas mãos cheias de nada..

da Libelua pela mão do adesenhar


29/7/05 10:22 PM


semeador




vai semeador

não te distraias

segue

os sulcos na terra

das palavras

semeia a tua paz e
poesia

nos quatro cantos das
almas já lavradas


vai semeador deita a

semente

que dá fruto em todas as

estações

não descanses bebe

água

e vai em frente na

busca

das imagens ignoradas


espalha-as por todos

os caminhos

maltratados desfeitos pelas

guerras

sem esquecer as crianças

que sofrem já despidas
de ilusões



vai semeador poeta
amigo

semeia o sonho

aonde o não houver.

e fiquem as palavras mais

amadas


poisa então o cansaço numa

pedra qualquer
e dorme as tuas noites
descansadas.



"coração, morango doce"

campo morangos by Edu

em memória do Planando


que amarou hoje e foi o meu primeiro blog

7.27.2005

sem legenda


"eu não espero" por kelly oneal

7.26.2005


Bill Brandt British Photographer


memórias cruas dos
sentidos

abrutas
intensas
sensuais
mas não mais

do que
cruas memórias de
perdidas
arrefecidas
perecidas

histórias












voar

voar tão alto que em baixo não me

vejas

nem oiças o rumor de bater de

asas

ver de cima, acima das

igrejas

das árvores dos montes das cinzentas

casas

magia de poder ver-se sem

ver

de conseguir admirar o próprio

caos

de que o homem é o grande

contrutor

de cima os homens não são bons nem

maus

são tal qual a natureza os

fez


pequenos animais para

sonhar

e que em vez do o fazer matam

derramam

o sangue e a alma de quem não se

verga

à pequena realidade que um homem

enxerga.

mas começa a chover e voo ainda mais

alto

voo até deus em enorme

gratidão

se me perder que não seja no

asfalto

mas num espaço de toda a

vastidão.

voar voar até cansar as asas!

7.25.2005

"...leite das pedras"


muitas vezes passeara na serra ao fim de tarde ou pela manhã.

ajudava a pensar ou a parar de pensar, contemplando apenas a serenidade que vinha dos cheiros a urze e alfazema, dos mugidos ou balidos do gado que descia aos redis, ou partia para o pasto, consoante a hora que escolhera.

hoje voltava pela primeira vez desde o que acontecera. adiou muitas vezes o reencontro. nada podia voltar a ser igual.

perdera o brilho do olhar. tinha secado as lágrimas mas elas , se contidas, provocam uma película de sal que altera a visão e não há beleza que penetre. sabia-o há anos.

passara tanto tempo?

sim, passara.

agora vivia só, como os mendigos das esquinas. mais que esses. eles ainda partilham a cerveja ou o bagaço matinal, pedinchado aos passantes, com os seus iguais.

que poderia e com quem partilhar?

perdera tudo. tinha a alma vazia.

dinheiro? ao caso não tinha qualquer préstimo, mesmo esse era pouco. nem a isso se prendera nunca.

olhou em volta. o rio tinha secado. não se espantou.

- se voltasse a ver aquela limpidez corrente voltaria a chorar, secou para mim, por mim.

os risos de cristal das suas crias ecoavam nas veredas, nas estradas, nas praias.

- olhe ele!

- comemos entrecosto grelhado ali, pai?

- olhe ela!

- eu gosto mais de peixe. paramos ali, pai?

- ainda falta muito para o restaurante?

- mas afinal vocês querem ir à praia ou comer?

- as duas coisas!

os risos - o rio a gargalhar.

sim, era melhor que o rio tivesse secado. não haveria ecos desse tempo.

- olha um jeep!

"com capota xem capota ele é jeep é cámião

mehari, xitroen, dá boleia de alegria com mais ANIMAXÃO"!!!"

- ai os meus ouvidos! ó xico axobio, quando é que tu aprendes a dizer os cês?

- eu XEI, mãe!

- ah, pois xabes!

risos. cristal. rio corrente sobre pedrinhas brancas, gargalhando.

olha de novo a ressequida serra, tão distraída que tropeça e cai. não tenta levantar-se. cheira a terra cinzenta, semimorta.

- está como eu, a terra.

é um declive e a força anímica esvaiu-se por complecto com queda.

- ficar aqui. ficar. parar por fim.

estende o braço num gesto involuntário, primitivo. agarra o único tufo de erva que, mais que viu sentiu, e acaba por erguer-se.

- parecem malmequeres, malmequeres bravos no meio da terra morta.

como se de repente jorrasse leite novo da velha Terra Mãe!

ficou-se por ali, já sem memórias. arrancou uma pequena flor que pôs atrás da orelha e foi descendo ( ou subindo?) devagar.

quem a visse pensaria que falava sozinha, mas não, trauteava sem se dar conta a antiga cantilena publicitária:

"com capota xem capota ele é jeep é camião?..."

- tenho de aprender a tirar leite das pedras, como os malmequeres.



7.24.2005

Serviço Público


Mario Soares
Created by Caricature Zone


Exemplo para as gerações do TER.

amanhã




atiro-me a um mar de trabalho