rain maker - Costa Rica

não se descreve a chuva. e só se dá por ela quando falta ou cai em demasia. assim é este blog. é, ou não é.

7.23.2005

Celebrar O DIA


"A Prayer for Peace" by Miguel Tió


- vem filha, depressa, é tão linda a festa! não falta ninguém!

- mas eu já não lembro porque se faz festa neste dia mãe...

- não eras nascida e graças a Deus! quando o fim esperado não aconteceu.

- conta mãe.conta!

- eu conto outra vez,
ninguém pode nunca voltar a esquecer.

a mim também foram já os teus avós a contar-me tudo.
tanto eles sofreram enquanto contavam!...

- mas conta já, mãe!

- nesta Terra grande que um dia Deus ou a Natureza ou o que quiserem, fez com perfeição, os homens viveram bem as suas vidas, entre a natureza no entendimento com o mar, os rios, os animais livres, as aves voando, as árvores verdes, as flores e o céu ou os outros astros que há no infinito espaço que nos cerca.

e foram sonhando. e foram estudando, e isso era bom!

descobriram tanta tanta coisa boa!

mas não aprenderam que sonhar demais pode afastar-nos muito do que nos envolve, do que está mais perto, das coisas pequenas, as mais importantes.

e em cada dia exigiam mais, competiam mais.

e se já no início, eles se batiam pelo espaço como os outros bichos, passaram a querer dominar os outros e a própria Terra.

vieram as guerras.

mataram mataram. as bombas que eles foram inventando destruíam tudo.

queimaram as árvores secaram os rios e o solo, de pobre, não tinha o que dar.

países inteiros morriam de fome. outros já morriam por comer demais...

que loucura extrema!

nuns sítios havia só inundações. noutros não chovia.

ilhas afundaram com tudo o que tinham. o ar poluído trazia doenças que não tinham cura.

mas ninguém fazia parar os senhores da guerra. na sua cegueira de ter sempre mais.

quando tudo estava à beira do fim, num caos que só visto, e eu também não vi, parece que houve uma inspiração num mesmo momento para toda a gente.

homens e mulheres foram para a rua numa nudez pura de quem se desprende do que é material e todos num Dia rezaram à uma. em cada cantinho que há neste mundo pela precisa Paz..

e os senhores da guerra pararam para ver.

e tudo mudou.

a vida voltou à sua beleza ao seu equilibrio com o que havia na Terra, de início.

é isso, filhinha que hoje celebramos. é esse, é: O Dia!

mas anda, ou perdes parte desta festa que desde essa altura, se celebra sempre para nunca esquecer.

- já estou pronta, mãe!

em training reference.uk gallery

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas
.


Sophia de Melo Breyner Andresen

7.22.2005

contra os fogos, submarinos e tgv?




in Público

Porquê?



um desempregado de 50 anos e um pastor incendiaram esta serra mágica, onde vivi parte da minha estrela-doida.

a minha serra verde!


desconheço o autor

o futuro?


ARCO–IRIS Associação por viver sustentável


Charneca em Flor


Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...


Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!


E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu bruel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade...


Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!


Florbela Espanca

anseio alentejano e não só...


Fachada Goleganense [em dia de chuva]- lamento não saber o autor

e sobre as nossas casas, estão em casa.


de Fernando Penim Redondo

aqui em Vila Franca


no Trail do Sapo
(obrigadinha!)

cá também há, sobre as casas alentejanas.


in fotoshow

7.21.2005

lobos




















mastilha na neve

perguntas à lua cheia


by Peter Chervinsky


- Lua, como tu és bela!

- obrigada, é luz do sol.

- e se se cruzam à noite ficas vermelha como ele...

- vê-se melhor nas planícies. um dia hás-de experimenter.

- já vi, no meu Alentejo, parecia a terra a arder.
agora já ardeu mesmo, azinheiras oliveiras, parece um deserto morto.

- como aqui aonde brilho à noite, para encantar?

- sim, quase como aí...

- como começam os fogos? não é só culpa do sol...

- somos nós os homens todos, sem respeito sem cuidado, muitas vezes por maldade.

- o vosso sentir não leio, mas vejo-vos atear sem bem perceber porquê. sem árvores não há ar que vos permita viver.

- eu sei, lua, todos sabem. e água por este andar há-de sobrar só no mar.

- estás triste?

- estou, amo a Terra!

- é tua Mãe, tens de amar!

- tenho o umbigo ligado a ela: se sofre, sofro...

- olha vem lá uma nuvem, vamos deixar de nos ver.

- lua, só uma pergunta, porque é que te uivam os lobos?

- por amor, por gratidão ao luar que ilumina a noites que dão prazer, como vocês, namorados.

olhaste-me tanta vez!

- obrigada. que pena lua, ter de deixar de te ver. isto que faço é uivar?

- vês, aí tens a resposta. adeus que já mal te vejo.

- ah, se essa nuvem deixasse cair chuva por aqui, perdoava-lhe o tapar-te!

mas a noite já vai alta e é tempo de voltar.

"quando os lobos uivam"

7.20.2005

à wind




vinda no vento

Jim Hahn's Stormy Night at Sea

"Ó Mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar.

Valeu a pena? Tudo vale a pena
se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu."


Fernando Pessoa

mão


Stations of the Cross - Lisa Ruyter


as cruzes que nos cercam não nos pesam
são ângulos apenas
que tantas vezes nos suportam o viver


as cruzes que me cercam são de chumbo
arrasto-as comigo
dia a dia até dificilmente adormecer.

há-de chegar a hora do outro sono
o da transformação
tão parecido com este, mais longo e antigo

o que me viu nascer e que apenas espera
que me canse
para me acolher e me levar pela mão.

partilha

por fim encontrou onde parar






Portal da intemporalidade voando,
pousado numa folha caída
de um Outono manso,
em diálogo intimo
de despedida,
entre urzes e sobreiros.
Lobo meu,
que de contradições pagãs,
vives a personagem mítica
num sonho de mulher
.


Do livro -"Lua de Lobos"
de maria de são pedro



Obrigada, Maria. :)

7.19.2005


Anitra Redlefsen


nalgum lugar
uma ferida
lateja
sangra
incomoda
desde a manhã
ao anoitecer
de nossas vidas
nalgum lugar
utopias
desilusões
florescem
murcham
ir e vir
das marés
em nossas vidas
nalgum lugar
o que se foi
sem pressa
prepara a sua volta
e o que é
logo deixará de ser
como conhecemos
em nossas vidas
nalgum lugar
um poema
é escrito
e reescrito
desde
a barra do dia
ao ocaso
de nossas vidas
nalgum lugar

um poema


batista filho

Réplica a Vinicíus de Moraes, camoneano



Amor... Não vou chamar-lhe amor,
Uma palavra no fio e cariada...
Que chamarei então à Alegria - e à sua dor,
também palavras, se as palavras não servem para nada?

Quero o puro referente, nenhum nome.
Pois qualquer que ele seja passa longe
deste quid... O próprio Deus se some
ao passo que a palavra mística progride...

E para mais a progressão não serve, só o instante,
a fracção de segundo, A Vida, a Eternidade,
a perfeição do tempo do amante.

Feição feita de quê? Da enormidade
que é o amor derrubar todas as travas
quando cresce de silêncios e palavras...


Praia,1987
José Fernandes Fafe

A FLOR - Ao "adesenhar"

"Eu trabalho tanto quanto posso todo o dia: Dou toda a minha medida, todos os meus meios, E depois, se o que fiz não é bom, já não sou responsável: é que não posso verdadeiramente fazer melhor."

Henri Matisse



Salvador Dali: Rose Meditative


Pede-se a uma criança, desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas.
Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. a criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.

Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.

Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!

As pessoas não acham parecidas essas linhas com as de uma flor!

Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

José de Almada Negreiros


7.18.2005

Navegar é preciso


Gazela in rough seas by Richard C. Moore,



Não importa a procela,

A solidão duma noite

Vazia de estrelas ou luar.

Entre vagalhões e calmarias,

Gritando com medo e êxtase,

A poesia, um navegar impreciso,

Realimenta a esperança na manhã que se anuncia.



É preciso:



Para além das lições do dia-a-dia,

Reencontrar as que jazem adormecidas;

Entender as razões que obscurecem o nosso

Caminho, mas não se deter, por causa delas.

Isso, jamais!

Somos navegantes das estrelas: timoneiros do próprio destino,

O sonho de nós mesmos, aprisionados em invólucros de barro.



Viver?! Não é preciso - é imprescindível


  • Poema de Batista Filho a quem admiro e agradeço.

Flying away


Flying away.by David Sinson



tenho certeza
um dia vou
inda vôo

tecerei minhas asas
com as penas
do coração

tenho certeza
um dia vou
inda vôo

  • de batista filho
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mais uma que fico a dever :)

7.17.2005

depois, o cansaço

a esta hora estou



farta de hipocrisia !!!

é desta que eu pago direitos de Autor... (in Madrigal)



Na árvore erguida
há um silêncio do tempo.
Um silêncio que porém sibila
ou uiva como o vento
o restolho das memórias.

Árvore alta, de braços erguidos como numa prece.
Em seu tronco velho e robusto
outras vidas urgem, e até parece
que é um outro universo,

uma outra terra.

Escolhe nas raízes profundas o alimento do seu sangue
seiva e sede e fúria e fome
e raiva e brio e alegria e lágrima exangue
que partilha no ser com as demais árvores.

E é por isso sempre a mesma árvore solitária
erguida num silêncio sibilante.
É árvore que se deixa vencer, mortal
morrendo de pé, enquanto as nuvens atravessam

sua copa

Árvore despida, árvore arvorada de linda primavera
é a mesma árvore que me abriga da chuva
ou na sua sombra me protege.

Árvore que ri, árvore que chora
árvore que sabe do mundo e o sustenta.

Árvore que escreve!

© José Alexandre Ramos