rain maker - Costa Rica

não se descreve a chuva. e só se dá por ela quando falta ou cai em demasia. assim é este blog. é, ou não é.

7.16.2005

o lobo livre



perdi o site :(

Filiforme


XO PHOTOS

Filiforme


O que faço com ela? Um arco?
jogo ao arco?


Chega a fragância
da infância... Tal como foi?
Não. Como foi dói.
Como eu a fiz.


Teve de ser
para o petiz
sobreviver.


Uma linha quebrada?
Quebra-se a rir.
Faz-me sorrir...
Ou até rir.
E os dois a rir é a Felicidade.
Pelo menos é a cumplicidade.


Desenho uma ferradura?
Se não me der sorte
dá-me a mão dura.


Desenho um círculo. A perfeição.
Ou desenho antes, adolescente,
um coração?


Desenho a linha do horizonte?


Avanço um passo, recua um passo.
O que nos separa mantém-se igual.
É o que acontece
quando se avança para o Ideal.


Fio de arame.
O equilibrista?
Segue o seu curso...


O fio
no fio?
Então perderei o fio ao discurso.


*

Retomo-o.


Parece uma linha
- tirada a tira-linhas...

Tiro a linha?
Fica nada.

Mas eu sempre busquei o Nada.


O Nada exclusivo
o puro referente
puro do conceito
puro da palavra
absolutamente
Nada.


Soa a infinito?


Mas não tenho água...


És só um fio de água...
Quando o que era preciso era um mar.


Está na palavra "amar" ?


O que as palavras têm dentro !...
A questão é encontrar.


O fio
de Ariana.
O de quem ama.
Que toma no labirinto a forma do labirinto...


O Minotauro?
Onde se esconde?


O Centro do Mundo
- e nada...
O Nada.


Para que serve o fio? Para que serve a meada?


Filiforme:
dá forma ao Nada
que não tem forma
que é branco branco

uma estepe nevada

uma estepe gelada

tudo plano

o último plano:

uma estepe gelada.


A Forma do Nada.





31 de Janeiro de 1986

José Fernandes Fafe

(a quem envio um sorriso com a admiração de sempre)

A Rua


Shadowman by Jungmiwha Bullock


Uma rua comprida, um silêncio total.

Caminho na escuridão e tropeço e caio e levanto-me

E piso com pés cegos

As pedras mudas e as folhas secas

E alguém atrás de mim também as pisa.

Se páro, pára.

Se corro, corre. Volto-me: ninguém.

Escuridão completa e sem saída.

Dou voltas e mais voltas, dobro esquinas

E venho dar sempre à mesma rua.

Onde ninguém me espera, ninguém me segue.

Onde sigo um homem que tropeça

E levanta-se e diz ao ver-me:



Ninguém.



Octvio Paz

Trad. J. Fernandes Fafe



Glosa/Comentário

batista filho said..
.
se não reconheço
meu próprio fantasma
nem ele me reconhece
é que de há muito anoiteço
sem sequer uma estrela-guia

qual morto insepulto vagando ao léu
sina pior que a de mendigo na noite fria



icicle star - Andy Goldsworthy

Acaso


by R. Delorme


No acaso da rua o acaso da rapariga loira.
Mas não, não é aquela.

A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.

Perco-me subitamente da visão imediata,
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,
E a outra rapariga passa.

Que grande vantagem o recordar intransigentemente!
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por gênio, se calhar,
Se calhar, ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!

Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos...
Mas isto era a respeito de uma rapariga,
De uma rapariga loira,
Mas qual delas?
Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade,
Numa outra espécie de rua;
E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade
Numa outra espécie de rua;
Por que todas as recordações são a mesma recordação,
Tudo que foi é a mesma morte,
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional.
Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas?
Pode ser... A rapariga loira?
É a mesma afinal...
Tudo é o mesmo afinal ...

Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também afinal.



Álvaro de Campos

7.15.2005

TERRA-LONGE (a Cabo Verde com saudade)


Artwork by Bj. de Castro

Aqui, perdido, distante
das realidades que apenas sonhei,
cansado pela febre do mais-além,
suponho
minha mãe a embalar-me,
eu, pequenino, zangado pelo sono que não vinha.

"Ai, não montes tal cavalinho,
tal cavalinho vai terra-longe,
terra longe tem gente-gentio,
gente-gentio come gente:"

À doce toada
meu sono caía e manso
da boca de minha mãe;

"Cala cala meu menino,
terra-longe tem gente-gentio
gente-gentio come gente."

Depois vieram os anos,
e, com eles, tantas saudades!...
Hoje, lá no fundo gritam: vai!
Mas a voz da minha mãe,
a gemer de mansinho
cantigas da minha infância,
aconselha ao filho amado:

"Terra-longe tem gente-gentio,
gente-gentio come gente."

Terra-longe! Terra-longe!...
- Oh mãe que me embalaste!
- Oh meu querer bipartido!


Pedro Corsino Azevedo

Xácara das 10 Meninas


"FREVO"
Created by
GraphBiz


Era uma vez dez meninas
de uma aldeia muito probe.
Deu um tranglomango nelas
não ficaram senão nove.

Era uma vez nove meninas
que só comiam biscoito.
Deu um tranglomango nelas
não ficaram senão oito.

Era uma vez oito meninas
em terras de dom Esparguete
Deu um tranglomanglo nelas
não ficaram senão sete.

Era uma vez sete meninas
lindas como outras não veis.
Deu um tranglomanglo nelas
não ficaram senão seis.

Era uma vez seis meninas
em landas de Charle Quinto.
Deu um tranglomanglo nelas
não ficaram senão cinco

Era uma vez cinco meninas
em um triângulo equilatro.
DEuu um tranglomanglo nelas
não ficaram senão quatro.~

Era uma vez quatro meninas
qu'avondavam só ao mês.
Deu um tranglomanglo nelas
não ficaram senão três.

Era uma vez três meninas
em o paço de dom Fuas.
Deu o tranglomanglo nelas
não ficaram senão duas.

Era uma vez duas meninas
ante um home todo espuma.
Deu um tranglomanglo nelas
transformaram-se em só uma.

Era uma vez uma menina
terrada em terral mui fundo.
Deu um tranglomanglo nela
voltaram as dez ao mundo.


Mário Cesariny de vasconcelos

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“Sensation”


by Jacob Feiffer

Pas les beaux soirs d’été, j’irai dans les sentiers
Picoté par les blés, fouler l’herbe menue:
Rêveur, j’en sentirai la fraîcheur à mes pieds:
Je laisserai le vent baigner ma tête nue.

Je ne parlerai pas, je ne penserai rien…
Mais un amour immense entrera dans mon âme,
Et, j’irai loin, bien loin; comme un bohémien
Par la Nature, — heureux comme avec une femme!
(1870)

Nas belas tardes de verão, pelas estradas irei,
Roçando os trigais, pisando a relva miúda:
Sonhador, a meus pés seu frescor sentirei:
E o vento banhando-me a cabeça desnuda.

Nada falarei, não pensarei em nada:
Mas um amor imenso me irá envolver,
E irei longe, bem longe, a alma despreocupada,
Pela Natureza — feliz como com uma mulher.
__________
Bibliografia: Vie d'Arthur Rimbaud, Hachette, 1962. Tradução de Arnaldo Poesia

O Mar é Grande, O Mar és tu (The sea is great, the sea is you)



poema de (poem by) Alfredo V Sousa

duas visões


BIRDS OF A FEATHER by Sally Maxwell




Birds Of A Feather by Anthony Falbo

7.14.2005

sem silicone


autor desconhecido

Para os muitos que já não sabem como é.



a Rimbaud


A Rimbaud- per Livia Alessandrini

ALQUIMIA DO VERBO


Para mim. A história das minhas loucuras. Há muito me gabava de possuir todas as paisagens possíveis, e julgava irrisórias as celebridades da pintura e da poesia moderna. Gostava das pinturas idiotas, em portas, decorações, telas circenses, placas, iluminuras populares; a literatura fora de moda, o latim da igreja, livros eróticos sem ortografia, romances de nossos antepassados, contos de fadas, pequenos livros infantis, velhas óperas, estribilhos ingênuos, rítmos ingênuos. Sonhava com as cruzadas, viagens de descobertas de que não existem relatos, repúblicas sem histórias, guerras de religião esmagadas, revoluções de costumes, des- locamentos de raças e continentes: acredi- tava em todas as magias. Inventava a cor das vogais! - A negro E branco, I vermelho, O azul, U verde. Regulava a forma e o movimento de cada consoante, e , com ritmos institivos, me vangloriava de ter inventado um verbo poético acessível, um dia ou outro, a todos os sentidos. Era comigo traduzí-los. Foi primeiro um experimento. Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens.

JEAN-ATHUR RIMBAUD.

Tradução de Paulo Hecker Filho

quando um bebado cai é culpa da cadeira


The Drunk Chair
Neringa Abrutytes collection

a tetina

velhice II


autor desconhecido

velhice I


em Galería "Ancianos" de Vicente Revilla, Perú

7.13.2005

We endorse the Peticao Contra a Extincao do Ballet Gulbenkian Petition to Conselho de Administracao da Fundacao Calouste Gulbenkian.

Assine. É pela arte das nossas crianças e por nós!

gratidão de lobo


A wolf howls in the rain
(Bob Hallinen / Anchorage Daily News)

rain maker


river and the rain - by sam javanrouh


consegui

a chuva caia sonora

água sobre água

respiravam as plantas

sacudiam o verde

embelezado

os peixes saltavam

na ribeira

brincavam crianças

chapinhando à chuva

e o cheiro a terra molhada

excitava os homens

fértil a terra

enverdecia

as pedras brilhavam
lavadas
reflectindo
a magia da água
no viver



consegui.

fiz chover

por uma noite

uns segundos na noite

e acordei.

morreu o Bombeiro, artista da Paz



The Death of Artist by Nguyen Dinh Dang,

oração pela chuva


RAINING - JANET REED

7.12.2005

Anjos no inferno


in

a água




'Árvores do Alentejo'


Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a benção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:---
Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!


Florbela Espanca

7.11.2005

inferno


Fire by Robert Ellaby

depois de pensar


Sleep : 1995 - Amy Kollar Anderson


"...quem dorme sem ter pensado

deve ter sono emprestado

não tem sono bem ganhado..."

Almada Negreiros


Romanian Shepherd




fogo

incendeia até

a lua

distante

indiferente

a tudo o que arde

é árvore é pasto

é casa

em caminho.

que fica?

que sobra?

- a terra

fecunda

que se refará

se o homem deixar

se o homem quiser...

medita o pastor

olhando o redil:

as minhas ovelhas

têm que comer!

(se o homem deixar

e

se Deus quiser.)

7.10.2005

e de novo o meu País arde


by Rollins

teve uma família. hoje, onde?


"Black and White Still"
by Ejay Khan